A estrutura de um roteiro para história em quadrinhos tem dois andares. No de cima fica a história: começo, meio e fim, com um conflito que empurra tudo. No de baixo fica o documento: página, quadro, descrição, falas e legendas, escritos de um jeito que o desenhista entenda sem precisar ligar para você. Abaixo estão os dois, com a conta dos atos por número de páginas, uma página de roteiro pronta para copiar e um teste de 20 minutos para descobrir se o texto cabe mesmo nos quadros.
O essencial em 30 segundos
- História: três atos, na proporção clássica de 25%, 50% e 25% das páginas, com um conflito e um gancho no fim do primeiro ato. Numa HQ de 8 páginas, isso dá 2 + 4 + 2.
- Documento: cabeçalho, página, quadro, descrição, fala e legenda. A contagem dos quadros recomeça em 1 a cada página, e toda fala leva o nome de quem fala.
- Tipo: o roteiro completo descreve cada quadro; o argumento descreve a página e deixa o layout para o desenhista. Quem desenha as próprias páginas pode ficar só com o argumento.
- Teste: no editor do BlankComic você monta o layout e põe as falas em balões para ver se o roteiro cabe na página. O editor faz layout e letras; a arte você desenha no papel ou em outro programa.
Os dois níveis de um roteiro de HQ
Quem pergunta pela “estrutura” de um roteiro pode estar falando de duas coisas. Uma é a forma da história: como ela começa, se complica e termina. A outra é a forma do texto: como organizar as linhas para que cada quadro seja desenhado do jeito que você imaginou.
Na prática as duas se misturam, mas vale separá-las para diagnosticar problemas. Uma boa história num documento bagunçado trava o desenhista. Um documento impecável com uma história sem conflito rende páginas bonitas em que nada acontece.
O roteiro existe porque resolveu um problema real. Segundo o roteirista Gian Danton, ele permitiu que alguém que não desenha faça quadrinhos e que artistas que nem moram no mesmo país trabalhem juntos. Se você desenha tudo sozinho, o roteiro vira um bilhete para o você do futuro, e isso já basta para escrevê-lo.
Estrutura da história: três atos, conflito e gancho
A estrutura mais citada divide a história em três atos: a apresentação dos personagens e do ambiente, o desenvolvimento, em que o protagonista tenta resolver o conflito, e a resolução. A proporção clássica reserva 25% das páginas ao primeiro ato, 50% ao segundo e 25% ao terceiro.
O modelo é associado ao roteirista Syd Field, e Danton lembra que ele é muito criticado por engessar a narrativa, a ponto de prever em que página deveria cair cada virada. Use como mapa geral, não como régua. A tabela só faz a conta por você:
| Páginas da HQ | Ato 1 | Ato 2 | Ato 3 |
|---|---|---|---|
| 4 | 1 | 2 | 1 |
| 8 | 2 | 4 | 2 |
| 12 | 3 | 6 | 3 |
| 24 | 6 | 12 | 6 |
Quando o número quebrar, arredonde a favor do segundo ato, onde está a ação. O que não vale é gastar metade das páginas apresentando personagens: Danton observa que o primeiro ato ocupa em média uns 25% e que passar muito disso cansa o leitor.
Mais importante que a proporção é ter conflito. Danton ilustra com três amigos que vão acampar: chegam, montam a barraca, dormem, passeiam e voltam felizes. Tudo acontece e nada importa. O conflito pode vir de um vilão, de um bicho na floresta, do destino (o carro quebra, o ônibus é assaltado) ou de uma briga dentro do próprio grupo, que já basta para segurar uma história curta.
O gancho é o fato que puxa a história: no fim do primeiro ato, algo muda e o protagonista não pode mais voltar atrás. A virada é parente próxima, um acontecimento que muda o que o leitor entendia até ali, e é dela que saem os finais-surpresa.
Em tirinhas: os três atos se comprimem em três quadros. Danton descreve que, nas tiras de aventura, o roteirista tem de três a cinco quadros para retomar o gancho da tira anterior, resolvê-lo e deixar outro no ar. Se esse é o seu formato, veja também o molde de tirinha de 3 quadros.
Estrutura do documento: página, quadro, fala e legenda
O roteiro de quadrinhos é uma hierarquia simples. No topo, o título e o nome de quem escreve. Depois vêm as páginas; dentro de cada página, os quadros; dentro de cada quadro, a descrição do que se vê, as falas e as legendas.
| Elemento | O que vai nele | Regra prática |
|---|---|---|
| Cabeçalho | Título e nome do roteirista | Uma vez, no início |
| Página | Número da página | A numeração dos quadros volta a 1 |
| Quadro | Cenário, personagens, plano, ângulo, ação | Uma ação por quadro |
| Fala | NOME: texto | Sempre com o nome de quem fala |
| Legenda | Narração, passagem de tempo, pensamento | Marcada como “Legenda:”, separada das falas |
Sobre a diagramação, há dois jeitos. No roteiro em T, a folha é dividida ao meio, com as descrições à esquerda e as falas à direita. No roteiro corrido, parecido com um texto de teatro ou cinema, você descreve o quadro e põe as falas logo abaixo. Danton prefere o corrido: o T amarra cada página de texto a uma página desenhada e dá trabalho em editores de texto comuns.
O vocabulário do cinema entra aqui. Plano geral, plano médio, plano americano (do joelho para cima), close, big close e plano detalhe dizem quanto do personagem aparece; ângulo inferior e ângulo superior dizem de onde olhamos. Marque também o quadro de impacto, aquele que merece ser maior que os vizinhos, e a splash page, que é a página inteira num quadro só.
Roteiro completo ou argumento
Danton separa duas modalidades. O roteiro completo (full script) descreve cada quadro de cada página, com falas e legendas. O argumento, também chamado de método Marvel, descreve a ação da página e deixa ao desenhista a escolha de quantos quadros usar e como dispô-los. O nome vem dos anos 1960, quando Stan Lee, ocupado com vários títulos, entregava só uma sinopse ao desenhista e escrevia o texto depois, sobre a arte pronta.
| Roteiro completo | Argumento | |
|---|---|---|
| O que descreve | Cada quadro de cada página | A ação da página inteira |
| Quem define o layout | O roteirista | O desenhista |
| Falas | Escritas junto com a descrição | Em geral depois, sobre a arte pronta |
| Vantagem | Controle e clareza | Agilidade e liberdade ao artista |
| Risco | Texto longo que ninguém lê | O estilo do desenhista cobre o do roteirista |
Uma regra prática: se você desenha as próprias páginas, escreva um argumento por página e resolva o resto em miniaturas. Se outra pessoa vai desenhar e vocês não trabalham lado a lado, escreva o roteiro completo, lembrando que o leitor dele é um desenhista. Texto objetivo, não seco.
Modelo de página de roteiro
Este é o formato corrido aplicado a uma página de quatro quadros. A história é inventada; copie a estrutura e troque o conteúdo.
O ELEVADOR
Roteiro: (seu nome)
PÁGINA 1
Quadro 1. Quadro largo, plano geral. Saguão de um prédio antigo, à noite. Marina, 30 anos, de pé diante do elevador, com uma sacola de mercado em cada mão. Um papel colado na porta: “Fora de serviço”. Ao fundo, a escada.
Legenda: Sétimo andar.
Marina: Só pode ser brincadeira.
Quadro 2. Plano médio. Marina no primeiro degrau, a alça de uma das sacolas escorregando do braço.
Marina: Um lance de cada vez.
Quadro 3. Plano detalhe: a mão de Marina no corrimão empoeirado, quatro dedos deixando quatro marcas limpas.
Quadro 4. Quadro de impacto, o maior da página, visto de cima. A escada em espiral sobe até sumir de vista; Marina é um ponto pequeno no pé dela.
Legenda: Faltavam seis andares.
O modelo faz quatro coisas de propósito. Cada quadro tem uma ação só. Toda fala vem com o nome de quem fala. O plano e o ângulo aparecem quando mudam o desenho. E o quadro de impacto está marcado, para o desenhista saber onde gastar espaço.
Repare também na última legenda: ela traz uma informação que o desenho não dá (quantos andares faltam). Danton considera um dos maiores defeitos de roteirista iniciante usar o texto só para contar o que a imagem já mostra. Reserve a legenda para pensamento, tempo, informação ou ironia.
Quantos quadros cabem numa página
Danton fala numa média de cinco ou seis quadros por página na maior parte dos quadrinhos, com cerca de dez na produção europeia. Trate o número como orçamento: se o roteiro descreve doze ações para uma página, alguma coisa precisa virar outra página ou ficar subentendida entre dois quadros.
O exemplo dele vale guardar. Um roteiro que faz o personagem se levantar, ir à cozinha, abrir a geladeira, servir o suco e voltar à sala em apenas dois quadros obriga o desenhista a escolher: ou abre mais quadros e a história cresce, ou corta ações e o leitor deduz o resto. Quem decide deve ser você, não o acaso.
Em formato vertical a conta muda. O manual oficial para criadores do WEBTOON CANVAS sugere no máximo dois quadros na tela ao mesmo tempo e até três balões por quadro. Os números e as demais medidas estão no guia de tamanho padrão de tela para webtoon.
Erros que o desenhista percebe na hora
| Erro | O que acontece | Correção |
|---|---|---|
| Fala sem nome | O desenhista chuta quem fala | Escreva “NOME: texto” em toda fala |
| Legenda sem marcação | Vira balão de um personagem | Marque “Legenda:” e separe das falas |
| Várias ações num quadro | Ações cortadas ou quadros extras | Uma ação por quadro |
| Legenda que repete o desenho | Texto sobrando | Use para o que a imagem não mostra |
| Narração que muda de tempo ou voz no meio | Parece que o personagem parou de pensar | Mantenha o mesmo tempo verbal do começo ao fim |
| História sem conflito | Páginas em que nada está em jogo | Defina o que o protagonista quer e o que o impede |
Teste seu roteiro no editor em 20 minutos
Um roteiro não está pronto quando o texto está bonito, e sim quando cabe na página. O Instituto Brasil Solidário recomenda, para tirinhas, um rascunho com desenho e falas para responder de antemão quantos quadros usar, onde encaixar os diálogos e que balões escolher. No editor você faz o mesmo teste com mais precisão.
Exercício
- Escolha uma página do roteiro (a do modelo acima serve) e conte quadros e falas.
- Abra o editor, escolha o formato de página (US Comic 6,5 × 10 pol., Manga 5,8 × 8,2 pol., A4 e outros) e, em Suggested Layouts, um layout com o mesmo número de quadros. Ajuste com a divisão de painéis na horizontal ou na vertical até o quadro de impacto ser o maior. Os nomes dos menus aparecem em inglês no editor.
- Digite cada fala num balão e cada legenda numa caixa de texto. Escolha o balão pelo tom: redondo, gritado, nuvem de pensamento ou sussurro. O guia de balões de fala ajuda a decidir.
- Veja onde o texto não cabe sem esconder o desenho. Corte no roteiro, não no tamanho da letra: fala que não cabe num balão legível costuma ser fala demais.
- Exporte em Export → PDF para mandar ao desenhista, ou salve o arquivo .blank (File → Save Project) para reabrir e editar depois. Um PDF não reabre para edição; o .blank, sim.
O BlankComic é um editor de layout, letras e montagem de página, não um programa de ilustração: desenhe no papel ou em outro programa e importe a arte. O passo a passo completo do editor está em como criar quadrinhos online.
Prefere papel? Planeje a página no editor e desenhe à mão nos livros de quadrinhos em branco de M M Milton.
Perguntas frequentes
Qual é a estrutura básica de um roteiro de história em quadrinhos?
Dois níveis. Na história, três atos (apresentação, desenvolvimento e resolução, em proporção de 25%, 50% e 25%) com conflito e gancho. No documento, cabeçalho, páginas, quadros e, em cada quadro, descrição, falas e legendas.
Como formatar um roteiro de HQ?
Use o formato corrido: título e autor, depois “Página 1”, “Quadro 1” e a descrição do que se vê, seguida das falas no formato NOME: texto e das legendas marcadas como “Legenda:”. A numeração dos quadros volta a 1 em cada página.
Qual a diferença entre roteiro e argumento?
O roteiro completo descreve cada quadro, com falas e legendas. O argumento descreve a ação da página e deixa para o desenhista decidir quantos quadros usar e como dispô-los. O segundo é mais ágil; o primeiro dá mais controle.
Quantos quadros devo colocar por página?
Danton cita uma média de cinco ou seis quadros por página na maior parte dos quadrinhos. Não é regra: use como orçamento e confira se cada quadro carrega uma ação só. Em webtoon, o manual do CANVAS sugere no máximo dois quadros na tela ao mesmo tempo.
Preciso saber desenhar para escrever um roteiro?
Não. O roteiro nasceu justamente para que quem não desenha possa fazer quadrinhos com um desenhista. Você precisa, sim, visualizar a página: pense em planos, ângulos e no que cabe em cada quadro antes de escrever.
Em que programa escrevo o roteiro?
Qualquer editor de texto serve para o roteiro corrido. O formato em T, com duas colunas, dá mais trabalho em programas comuns. Para testar o texto nos quadros, monte a página no editor do BlankComic e coloque as falas nos balões.
Como dividir os atos numa HQ de 8 páginas?
Pela proporção clássica de 25%, 50% e 25%: duas páginas para a apresentação, quatro para o desenvolvimento e duas para a resolução. Trate como guia, não como regra: o primeiro ato curto costuma funcionar melhor que o longo.
Fontes e para continuar lendo
Os dados deste guia foram conferidos com os recursos abaixo. Todos são gratuitos.
- Gian Danton, “O roteiro nas Histórias em Quadrinhos” (Marca de Fantasia/UFPB, 2ª ed., 2016): tipos de roteiro, formatação, três atos, conflito, gancho e média de quadros por página.
- WEBTOON, “Creator’s Resource Handbook” (em inglês): sugestões de quadros e balões em formato vertical.
- Instituto Brasil Solidário, “Tutorial de tirinhas”: rascunho com desenho e falas para testar quadros, diálogos e balões.